COM A PALAVRA, PLÍNIO FREIRE GOMES Entrevista exclusiva

LatitudesCom a palavra, o especialista9 de maio de 2017

O historiador e professor concedeu à Latitudes uma entrevista exclusiva e muito esclarecedora sobre as viagens de conhecimento. Confira!

  1. O que levou você a ser historiador?

Visitar o passado é como explorar um país estrangeiro. À medida que a viagem avança, a surpresa, a incredulidade e o deslumbramento não param de aumentar. Somos levados assim a conhecer indivíduos que nascem, vivem e morrem segundo regras próprias. Percebemos também que estes hábitos e tabus refletem formas muito curiosas de encarar a realidade. O que para eles é a “ordem natural das coisas”, para nós pode parecer misterioso, insensato ou mesmo cômico. Ora, o trabalho do historiador consiste precisamente em dar sentido a este país estrangeiro. Fascinava-me a ideia de aguçar o ouvido para decifrar seu estranho idioma e, de alguma forma, ajudá-lo a se comunicar conosco, com o “país” do mundo atual.

  1. Você viveu por dez anos em Florença (Itália), e de lá se mudou para Damasco (Síria), onde morou por mais alguns anos. O que motivou essa mudança? Você sentiu o choque cultural?

Fui para Florença interessado em estudar o Renascimento e, assim, a permanência na Itália fazia parte de um projeto acadêmico. Já a transferência para a Síria se deu por razão muito mais fortuita, de natureza afetiva. Sem possuir origem árabe, nunca tivera qualquer contato com a língua, a religião ou os costumes do lugar. Por isso, o estranhamento foi considerável. Mas a expressão “choque cultural” não se aplica ao meu caso. Porque “choque” pressupõe a ideia de impacto, de colisão, de desastre. E minha experiência no Oriente Médio, embora inesperada, não causou qualquer dano. Pelo contrário, foi uma “trombada” benigna, que me forçou a entrar em contato com um vasto tesouro em termos de fé, de convívio humano e de beleza artística.

  1. O olhar do Ocidente sobre o Oriente (e vice-versa) é um tema bastante presente nas suas análises. A sua vivência fora do Brasil, especialmente o período que você passou na Síria, mudou a sua percepção em relação ao Oriente?

Até poucos anos atrás, antes da guerra, a Síria representava para um historiador uma experiência tão enriquecedora quanto seria, para um biólogo, descobrir a Amazônia. Toda a história humana está ali representada, desde o surgimento da agricultura e da escrita até as tensões que irão redesenhar o século 21. Das incursões assírias ao Império Romano, do Cristianismo bizantino ao Islam, dos califas aos sultões otomanos, da colonização francesa ao nacionalismo panarabista – parece não ter fim a lista de contextos que deixaram (e ainda deixam) rastros naquele singularíssimo país. A Síria abriu para mim a possibilidade de indagar o passado não mais na escala dos séculos, e sim na dos milênios. O estudioso do Oriente que não for capaz de fazer este salto no tempo terá dificuldade em enquadrar o próprio objeto. Porque tomará suas características por imutáveis e atemporais (a economia, a religião, a política), ignorando que elas, na verdade, também estão em movimento, embora numa temporalidade muito mais longa.

  1. Como você vê essa relação Oriente x Ocidente hoje?

Para os historiadores é impossível raciocinar sem o lastro do passado. Hoje, Oriente e Ocidente se definem como áreas geográficas e culturais distintas. Cada qual resulta de duradouras experiências históricas feitas de impérios, religiões e formas de pensamento que assumiram contornos próprios. Ocorre que estas experiências nunca se excluíram mutuamente. Basta lembrar, por exemplo, que o grande poeta latino Virgílio escreveu versos extasiados ante a sutileza dos fios da seda. E que, recentemente, peças de vidro de manufatura romana foram escavados numa tumba da dinastia Jin (século 4 d.C.), na província chinesa de Anhui. Tais objetos, a seda e o vidro, puderam atravessar de ponta a ponta a Eurásia graças a antiquíssimas formas de circulação mercantil, que hoje chamamos “Rota da Seda”. Dos exemplos de comércio passamos inevitavelmente às transações culturais e científicas (medicina, astronomia, matemática). A relação Ocidente/Oriente consiste, portanto, num longo, assíduo e muitas vezes ávido processo de trocas. Acreditar que Ocidente e Oriente possam ser mundos rivais, como faz muita gente, é ignorar a realidade deste diálogo milenar. Onde outros enxergam “choques de civilização”, os historiadores veem um encontro entre organismos diferentes onde ambos saem ganhando. Em uma palavra, “simbiose”.

  1. Você é professor há muitos anos. Acredita que viagens, mesmo aquelas cujo objetivo é apenas o lazer, possam ser um grande aprendizado?

A resposta a esta pergunta encontro no Brahmana, o texto sacro do Hinduísmo. Ali o deus Indra oferece ao jovem Rohita um conselho de grande sabedoria:

Não há felicidade para quem não viaja, Rohita!

Ao restar na sociedade dos homens,

Mesmo o melhor deles se perde.

Ponha-se a viajar.

Os pés do viajante viram flores,

Sua alma cresce e dá frutos

E seus vícios são lavados pelo cansaço de viajar.

A sorte de quem fica parado não se move,

Dorme quando ele está no sono

E se levanta quando ele está de pé.

Então vá, viaja, Rohita!

  1. Como você avalia a diferença entre uma viagem que tem apenas os guias locais como apoio nos destinos, e uma viagem com um especialista, sobre um tema específico?

O bom guia local, coisa rara, é aquele que sabe reproduzir informações técnicas (datas, fatos, nomes) e que também agrega a elas sua própria identidade com o território. Já o especialista funciona como mediador entre esse vínculo tão peculiar, tão íntimo, e o horizonte cultural do viajante. Tomarei a ruína de Persépolis como exemplo. Ao visitarmos aquele estupendo complexo palaciano do século 5 a.C., num vale semi-desértico do Irã, ouvimos a nossa guia local contar que o monumento escapou por um triz de ser varrido do mapa. Corriam os anos da Revolução Islâmica e, em nome do zelo religioso, um aiatollah ordenou o abatimento da estrutura. A população, por sorte, reagiu a tempo bloqueando a passagem dos tratores. Era uma informação valiosíssima, que testemunha a importância de Persépolis para os iranianos hoje – e sobre a qual os manuais de viagem e a internet nada dizem. A mim, como especialista, coube outra tarefa que tampouco é óbvia: colocar Persépolis no contexto dos grandes impérios da Antiguidade, comparando sua concepção arquitetônica e sua função política com outros monumentos de origem grega, egípcia e mesopotâmica. A junção dessas duas abordagens – a do bom guia local e a do especialista – produzem uma sinergia muito particular. Como no caso de Persépolis, o que ambos almejam é transformar a beleza fria e estática de um cartão postal em vivência cultural plena.

  1. Você costuma levar grupos para lugares um pouco fora da rota comum do turismo como Índia e Irã. É interessante ver o impacto que essas culturas e as diferenças causam nas pessoas?

Percorrer rotas situadas fora do horizonte do turismo de massa tem um sabor único. Você se entrega para o universo do inesperado, do desconhecido, do impensado. Você se depara com paisagens – naturais e humanas – saturadas de estímulos novos. Surpreende-se com aromas e sons irreconhecíveis, com tonalidades jamais vistas na atmosfera ou no relevo. E ao mesmo tempo se depara com indivíduos cuja raça sequer imaginava encontrar um dia. Entra com eles em seus mercados e seus templos, experimenta seus pratos, ouve suas preces, observa seus hábitos. Mas o fundamental é que não há turistas além de você: seu estado de maravilhamento acontece em escala quase pessoal (você perante eles), e solicita outro maravilhamento de mesmo tipo (eles perante você). Eis por que, em lugares como Índia ou Irã, a população local costuma ter reações tão calorosas com o viajante estrangeiro. Mostram os filhos pequenos, convidam para o chá, trocam contatos na rede social e, acima de tudo, querem se fazer fotografar a seu lado. Os papeis, enfim, se invertem; e a atração turística passa a ser você.

  1. Durante as suas viagens, você fica junto das pessoas a maior parte do tempo orientando um conteúdo, numa constante troca. Você sente que essas experiências mais aprofundadas tocam as pessoas de uma forma diferente?

A proximidade com o grupo tem o dom de transformar a viagem numa espécie de imersão. É como se o individualismo da vida cotidiana também saísse de férias – mas férias de nós. De repente nos descobrimos mais solidários, espontâneos e curiosos. Certa vez, numa mesquita iraniana, chamei a atenção do grupo para a beleza dos ornamentos. “Um arabesco, disse, não é concebido apenas para ser algo bonito. Ele também veicula significado; e, como qualquer página escrita, nos oferece um texto: basta saber ler seus códigos.” Não deu outra. A expressão de surpresa estava estampada no rosto de todos; e as perguntas começaram a se multiplicar. Respondi que o tema demandava certa concentração. Combinamos, então, que o grupo se encontraria comigo mais tarde, para uma conversa sobre arte islâmica no hotel. A partir daquela atividade noturna, todos estavam “alfabetizados” e a visita às mesquitas ganhou outro encanto.

  1. Pessoalmente, que tipo de aprendizado essas experiências com esses grupos deixa em você?

Minha formação me faz encarar o passado quase como coisa atual e viva. Assim, visitar um cenário onde acontecimentos importantes tiveram lugar, uma ruína, um campo de batalha, uma fronteira hoje desaparecida, tem forte poder sugestivo. A possibilidade de deparar a história in loco cria, para mim, uma estranha forma de lucidez, de visão. É como se subitamente séculos de silêncio se dissipassem; e um conteúdo, que hoje existe apenas nos livros, voltasse a se materializar à luz do sol. Sinto enorme prazer em poder descrever este tipo de manifestação para quem estiver junto comigo – e que, não sendo historiador, não tem olhos para poder vê-la.

  1. Quais os seus próximos projetos de viagem?

A Itália sempre foi uma meta primordial para mim. Em parceria de Isabella Callia, que é antropóloga do gosto, estou desenvolvendo um projeto cujo foco é a Sicilia. A ideia é unir o território, a história e a culinária numa narrativa comum que ajude a desvendar os encantos desta ilha ainda tão pouco conhecida entre nós. Outro projeto importante é a segunda edição da “Volta ao mundo”, com o jato privado da Latitudes. Desta vez, o jornalista Lourival Sant’Anna e eu embarcaremos numa expedição rumo aos grandes impérios da história. Começando pelo México, faremos depois incursões no Japão, China, Índia, Irã, Sicília e Marrocos – terras onde se instauraram diferentes modelos de poder imperial, deixando um fascinante rastro artístico e cultural.

Plínio Freire Gomes é Historiador e Mestre pela USP, tradutor, conferencista. Plínio publicou vários artigos acadêmicos, além do livro Um Herege Vai ao Paraíso (Cia. das Letras, 1997). Viveu em Florença (Itália) por dez anos e transferiu-se para Damasco (Síria), onde se dedicou ao estudo do Islã e da cultura árabe. Atualmente desenvolve projetos ligados à arte islâmica e à história das relações entre o Ocidente e o Oriente. Ministra cursos em instituições como Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Centro Cultural Universitário Maria Antônia (USP) e Casa do Saber.

 

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