AMRITSAR, 45 GRAUS.

Alexandre CymbalistaInspirações Latitudes13 de junho de 2017

Chegamos no dia errado. Ou, talvez, no dia certo para ter uma melhor compreensão de dois dos eventos que marcaram de forma intensa Amritsar, berço da religião Sikh e uma das cidades mais importantes do estado de Punjab, no Norte da Índia.

Tudo começa com a conquista da independência pelos indianos, liderados por Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru. Depois de séculos de exploração pelo império colonial inglês, a Índia finalmente consegue a libertação através de uma revolta que pregou a desobediência civil de forma não-violenta. Depois da retirada dos ingleses, os indianos agora precisavam reorganizar seu país, escolher seus líderes, demarcar fronteiras e estabelecer as bases de um país que surgia impregnado de divisões sociais e religiosas.

Em 1947 o governo britânico, junto com lideranças indianas capitaneadas por Nehru e Mohammad Ali Jinnah, estabeleceram a divisão de dois estados soberanos a partir do subcontinente indiano: o domínio da Índia no Sul e o domínio do Paquistão no Noroeste, que englobava o território atual do Paquistão e Bangladesh. Uma boa parte da população nas novas terras demarcadas indianas era muçulmana, sendo que o país era majoritariamente hindu, enquanto do outro lado da fronteira, sob domínio do Paquistão majoritariamente muçulmano, encontrava-se uma população em parte hindu e sikh. Com a partilha, mais de 15 milhões de imigrantes cruzam a fronteira de lado a lado, em direção ao país de sua maioria religiosa.

O resultado disso foi catastrófico: tendo que abandonar tudo que haviam construído no passado, suas memórias, suas casas, suas vidas… um grande sentimento de revolta surgiu em ambos os grupos, culpando uns aos outros. As massas de pessoas que seguiam se cruzando pelo caminho em sentidos opostos, por vezes se atracavam, deixando milhares de mortos. Não bastasse isso, os que ainda não haviam partido escutavam as notícias dos massacres e, tomados por fúria, exterminavam e perseguiam o outro lado religioso em suas próprias vilas e cidades, onde antes viviam pacificamente. Centenas de milhares de pessoas morreram neste embate entre hindus e muçulmanos, enquanto trocavam de país, resultando em uma das grandes tragédias da humanidade no século 20.

O Punjab, palco onde ocorreu a maior parte desta migração, é um dos estados mais ricos da Índia e tem orgulho de possuir uma cultura própria, um passado de conquistas e de sua população ser reconhecida como berço de grandes guerreiros. Além disso é um estado com 65% de sua população adepta do Sikhismo (a Índia toda tem menos de 2% da população Sikh). iniciado no final do século XV por um guru espiritual chamado Nanak que, influenciado tanto pelo Hinduísmo como pelo Islamismo – e mesmo pelo Sufismo, vertente mais mística do Islamismo – pregava as boas ações, a fraternidade, o trabalho honesto e a presença de Deus continuamente em nossas mentes.

Deus, pelo Sikhismo, é um ser supremo que está acima de qualquer representação, permeia tudo que está à nossa volta, em relação direta com os humanos. Depois do guru Nanak, nove outros gurus contribuíram com os ensinamentos e cânticos, compilados no que é considerado um Livro-vivo, o 11o guru, chamado de Guru Granth Sahib (o “Senhor Mestre Livro”). O Sikhismo foi durante séculos perseguido como minoria religiosa. Por conta desta perseguição, os Sikhs foram historicamente treinados para autodefesa, e um dos símbolos da religião é justamente a adaga.

Depois de estabelecidos os países da Índia e Paquistão, o governo central indiano declarou o hindi como língua oficial. Por essa razão, alguns sikhs que queriam manter a cultura e a língua Punjab como oficial do estado, buscando maior autonomia da região ou até mesmo a independência, iniciaram uma série de revoltas que culminaram na prisão e morte de milhares de sikhs ao logo das décadas seguintes.

Em 1984, algumas centenas de radicais sikhs, com ideias de criar um estado independente chamado Kalistão, se entrincheiraram no mais reverenciado complexo de templos Sikh em Amritsar, onde encontra-se o famoso Templo Dourado. Ao contrário dos milhares de peregrinos que seguem para o templo em Amritsar em busca apenas de orações, estes radicais, liderados por Jarnail Singh Bhindranwale, estavam altamente armados e prontos para a luta.

Indira Gandhi, filha de Nehru, que naquele momento era a primeira ministra da Índia, ordenou então que tropas militares sufocassem o movimento. Esta operação, conhecida como “Blue Star” começou com a prisão de militantes em diversas partes do estado do Punjab, mas a principal batalha ocorreu justamente no templo. Nos primeiros dias de junho o exército cercou o templo solicitando rendição. Peregrinos que não participavam disso ficaram entre os dois lados, não conseguindo se retirar. A batalha que se seguiu no dia 6 de junho resultou em centenas de mortes de ambos os lados, incluindo peregrinos, militantes radicais e militares indianos.

Inconformados pela invasão e destruição de parte do templo pelo exército, os sikhs (mesmo os que não apoiavam os radicais) sentiram-se ultrajados, como se tivessem atacado sua religião e crenças. Esse sentimento de raiva culminou no assassinato de Indira Gandhi três meses depois, por dois de seus guarda-costas sikhs. Os dias seguintes ao assassinato foram de graves tumultos pela Índia, com milhares de sikhs assassinados por hindus e hindus sendo mortos no estado de Punjab. O governo indiano reconstruiu as áreas do templo que haviam sido destruídas na operação militar. Mas ainda revoltados, os sikhs preferiram demolir a reconstrução promovida pelo governo e eles mesmos reconstruírem seu templo.

Este é o pano de fundo de nossa visita a Amritsar, exatamente no dia 06 de junho de 2017, 70 anos depois da independência da Índia, e no mesmo dia em que, há 33 anos, aconteceu a operação “Blue Star”. Todas as lojas e comércio estão fechados, as ruas estão cercadas de policiais, há barreiras e verificações por todas as partes. O gerente do hotel que estamos hospedados disse em alto e bom som (em seu inglês cheio de sotaque) que não deveríamos ir à área do templo naquele dia. O guia não nos desaconselhou, mas disse que faríamos uma visita breve, sem dar a volta inteira no templo e muito menos adentrá-lo.

Era fato que o ar estava carregado. Segundo nosso guia havia muito menos peregrinos neste dia que em um dia normal, apesar de acharmos que estava bastante cheio. Seguimos por algumas ruas até chegar ao lago artificial que cerca o Templo Dourado. Apesar de certa apreensão, nos causou uma grata surpresa a limpeza do lugar e principalmente a aparência dos sikhs. Conhecidos por serem altos e por usarem turbantes brancos ou coloridos, todos estavam muito bem vestidos, portando adagas na cintura, mas com feições de poucos amigos. Assim como as mulheres do Rajastão que vestem saris coloridos e são extremamente fotogênicas, os Sikhs atraem rapidamente o olhar fotográfico. Infelizmente este não era o dia perfeito e sabíamos que deveríamos ter cuidados com as fotos. Mesmo assim, nosso passeio pelo Templo Dourado, pelo grande e sagrado tanque de água (Amritsar – “Tanque da Ambrosia”) e os outros templos ao redor ocorreram sem maiores problemas. Ficamos felizes de poder entender mais sobre esta minoria religiosa, seus conceitos, suas crenças, sua luta, seus problemas.

E, para terminar nosso dia conhecendo mais a história do Punjab, fomos a um evento que ocorre todos os dias na fronteira entre Índia e Paquistão (conhecida como Wagah border). Ali, há 30 km de Amritsar, entre os dois países que mantém desde a independência uma relação bastante conflituosa, foi instituído um ritual em memória dos milhares de mortos na migração iniciada em 1947. Guardas dos dois países, em uma espécie de teatro de troca da guarda, abrem os portões que separam os países em um gesto de amizade. Obviamente este acontecimento que atrai milhares de pessoas todos os dias, é algo que demonstra força e competitividade pelos militares de cada país, mas que são obrigados a seguirem um protocolo pacífico. O evento é um grande espetáculo, principalmente do lado indiano, com as pessoas torcendo a cada demonstração de superioridade e agressividade, sendo até liderados por um chefe de torcida. No final, tudo acaba em música. Os indianos, assim como brasileiros, adoram dançar e se sentem à vontade para demonstrar isso nas ruas, terminando a festa ao som de hits dos famosos filmes de Bollywood e nas festivas danças do Punjab.

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