EM TERRA DE REIS E DRAGÕES Butão, paraíso escondido

Erica de CarvalhoInspirações Latitudes29 de junho de 2017

Tente imaginar um reino intocado, em terras altas, com uma vista estonteante para vales verdes e férteis, rodeados por cumes nevados. Um lugar raro, onde os índices de emissão de carbono chegam a ser negativos, onde 70% de toda natureza é preservada e, mesmo assim, a terra dá todo alimento àqueles que vivem dela. Além do ar, a água e seus alimentos (em sua grande maioria orgânicos), o coração dos seus habitantes parece ser puro, devotado a seus mitos, a seus valores elevados, à vivacidade do budismo tibetano e, como não poderia faltar em uma história encantada, à adorada família real.

Estamos falando do Butão, mas bem que poderia ser Shangri-lá. O último grande reino dos Himalaias está localizado entre os gigantes China e Índia, em uma pequena área equivalente à da Suíça (mas com altitude média ainda maior). É verdade que nem tudo é um conto de fadas por aqui. Mas se tivéssemos que encontrar no mundo real o melhor cenário para ele, bem que poderia ser o Butão.

“Tiger’s Nest (Ninho do Tigre, em inglês), ou Monastério Taktsang, é um dos principais ícones do Butão. O templo, encravado nas pedras de uma montanha na cidade de Paro (900m mais alto que seu vale), foi construído em 1692, exatamente no local de uma caverna onde o Guru Rimpoché (tido como segunda encarnação de Buda) meditou por 3 meses no século VIII (algumas fontes afirmam terem sido 3 anos, 3 meses, 3 dias e 3 horas). A lenda também conta que Rimpoché chegou ali montado em um tigre voador, que era nada menos que sua consorte em um corpo de animal. Já dá para ver que sua vida foi repleta de fatos extraordinários, desde o nascimento em uma flor de lótus, num corpo de um garoto de 8 anos, até manifestações múltiplas de si mesmo, ao mesmo tempo em lugares diversos. Mas extraordinário mesmo é ver com os próprios olhos a beleza do Templo depois de 2 a 3 horas de subida até chegar lá!

Não foi sempre essa calmaria toda por aqui. Antes território do Tibet, os primeiros registros da nação remontam do século VII, quando o rei tibetano Songtsen Gampo construiu os primeiros templos budistas nos vales de Paro e de Bumthang. No século VIII, vindo da Índia, teve passagem pelo Butão a segunda encarnação de Buda, Guru Rimpoché (o mesmo citado na legenda da foto acima), trazendo o budismo tântrico para a tradição butanesa.

Vista do vale da cidade de Punakha, com suas plantações de arroz, batata e chili (eles adoram comida apimentada!). Em primeiro plano, uma roda de orações tibetana. Dentro da roda estão inscritas orações budistas. Girando-as, os butaneses acreditam que essas orações se espalham pela atmosfera, conferindo bênçãos e proteção espiritual.

Mas o surgimento da nação começa mesmo com a chegada de um príncipe fugido do Tibete, que no século XVII unifica seus vários feudos, constrói as mais importantes fortalezas (Dzongs) para evitar invasões mongóis e tibetanas, confere-lhe uma língua e vestimenta nacionais, tornando-se o primeiro “Shabdrung” – aquele a cujos pés todos se prostram – do Butão. A partir do seu governo estabeleceu-se um sistema político e religioso que vigorou até 1907 (nele, o poder é administrado por duas entidades, uma temporal e outra religiosa/budista, ambas sob a supervisão do Shabdrung). Após sua morte, a disputa sucessiva pelo poder era tanta que alguns governantes sobreviviam apenas dias (e em muitos casos, horas) após tomar posse. O país corria o risco de se dividir novamente em feudos. Mas aí apareceu um governante que se mostrou forte e invencível o bastante para manter o país unido. Ele já controlava o Butão central e oriental, e ampliava sua influência sobre todo o país. Foi assim que em 1907, Ugyen Wangchuck foi coroado rei do Butão, após consultas às autoridades budistas (e aos astros), à aristocracia e ao povo. Junto com a aliança dos ingleses, foi criada a monarquia hereditária que vigora até hoje.

A dinastia Wangchuck, de 1907 até os dias de hoje.

O primeiro rei (tataravô do rei atual) foi um governante muito bem-sucedido e ficou quase 20 anos no poder. Seu filho, o segundo rei, era um bom homem, mas parecia mais motivado a treinar arco e flecha (o esporte nacional) do que qualquer outra coisa, era capaz de passar o dia atirando flechas a longas distâncias, em alvos minúsculos, mas parece não ter feito grandes acertos enquanto líder do Butão.

Arco e flecha, o esporte (e paixão) nacional. O grau de dificuldade é altíssimo, já que o alvo é pequeno, e fica há 135m do local de arremesso das flechas.

Já o terceiro rei da dinastia, fez grande diferença e ficou conhecido como o “Rei da Modernização”. Com ótimas relações com a Índia, teve acesso a vacinas e a várias outras medidas médicas e de ordem sanitária que fizeram com que a população praticamente dobrasse sua média de vida (que na época não passava de 30 e poucos anos). Mas paradoxalmente, na Índia também adquiriu o hábito de fumar, e acabou morrendo cedo demais, com câncer de pulmão. Seu filho (pai do rei atual), que no momento estava iniciando seu primeiro “estágio” como governante (todo herdeiro do trono tem que morar e administrar por um ano uma das fortalezas do País), teve que tomar posse às pressas, com apenas 17 anos. Sob grande pressão, e ainda muito novo, ele se desdobrou para entender e servir o Butão da melhor forma possível. Ainda bem jovem, durante uma entrevista a um jornal britânico, questionado sobre qual seria o principal produto produzido pelo Butão, Jigme Singya respondeu com toda firmeza que muito mais importante do que produtos era ver seu povo produzir felicidade, que esse sim era o principal valor do país. Essa resposta, que expressou sua opinião de que um país produtivo não depende somente do dinheiro, mas também da felicidade e harmonia da nação, fez com que surgisse, em contrapartida ao PIB, a sigla FIB – Felicidade Interna Bruta (em inglês, GNHGross National Happiness), e atribuíssem ao Butão a fama de “O País da Felicidade”.

Foi ainda no início da década de 70 que o quarto rei criou os 4 pilares da Felicidade Interna Bruta: desenvolvimento econômico sustentável, preservação da cultura, conservação do meio ambiente e boa governança. Mais tarde, esses pilares foram desmembrados em 9 áreas.

Uma típica butanesa, questionada sobre o que é felicidade. Ela nos responde que felicidade é contentamento, que está nas coisas simples e não nos bens materiais. Ela precisou ir morar na Índia, onde se graduou em Engenharia da Computação, para ver que sua verdadeira felicidade estava na vida no campo, e não na frente de uma tela de computador. Vive hoje em sua propriedade familiar, toda autossustentável (produzem o próprio leite, manteiga, queijo, ovos, até arroz, legumes, verduras e frutas). Ainda é vivo na memória o som das suas gargalhadas enquanto ia nos contando sua epopeia.

A FÓRMULA DA FELICIDADE BUTANESA

De acordo com o Centro de Estudos do Butão, organização ligada ao governo, essas são as 9 áreas para medir a felicidade do povo:

Padrão de vida (renda per capita e a qualidade dos bens e serviços disponíveis à população)
Boa governança (avalia como a população enxerga o governo)
Uso e equilíbrio do tempo (o tempo que a população dedica ao trabalho, à família e à cultura)
Saúde da população (políticas de saúde e expectativa de vida)
Vitalidade e diversidade da cultura (serve para dizer o quanto os habitantes se identificam com o lugar onde moram)
Vitalidade e diversidade do ecossistema (qualidade da água, do ar, do solo e a biodiversidade)
Vitalidade da comunidade (bem-estar coletivo)
Educação (mede as taxas de alfabetização e o acesso às escolas e faculdades)
Bem-estar emocional (é o mais pessoal e profundo dos índices: tenta mostrar o grau de satisfação, de otimismo, que cada habitante tem em relação à sua própria vida)

A maioria dos valores da sociedade butanesa são baseados na filosofia budista tibetana, com sua busca pela compaixão em ação, contemplação, meditação, fé na lei do Dharma (que nos ensina que toda boa ação gera bons frutos, e que toda má ação gera maus frutos) e estudo da Roda da Vida (Kalachakra), que revela que a alma é imortal e retorna várias e várias vezes a esse plano material da existência.

No Butão, o dinheiro parece não ditar as regras. Medidas polêmicas, como a proibição e criminalização do hábito de fumar (cigarro mesmo) em 2004, são tomadas em nome do bem social – e também com a justificativa de proteger o meio ambiente (evitando queimadas), e também a cultura (já que o hábito de fumar não faz parte dela). Logicamente, existe um mercado negro, e quem não consegue se livrar do vício pode importar cigarros para consumo próprio, mas só dentro de sua casa, e com uma taxa de 100%. O Estado poderia ganhar muito taxando o tabaco, mas prefere seguir firme em seus princípios e mostrar sua forma de governar com pulso firme e fincada em “valores mais elevados”. Para se ter ideia, para entrar no país você tem que preencher um formulário que coloca no mesmo texto a negativa de porte de armas de fogo e drogas pesadas, com o porte de qualquer produto que tenha tabaco. Por outro lado, grande parte da população masca folhas de betel enroladas com outras substâncias que, apesar de naturais, são altamente viciantes e pouco saudáveis (e ainda deixam os dentes com um aspecto avermelhado meio assustador). É algo cultural, e parece ser a forma dos butaneses lidarem com suas doses de estresse sem destoar da tradição local.

Depois de 34 anos de reinado, em 2006, o Quarto “Dragão” da Dinastia Wangchuck decidiu abdicar em favor de seu filho. Muito amado, deixou o povo nas ruas em lágrimas, mas de acordo com o monarca, o Butão seria presenteado com duas grandes joias: a chegada de um novo líder – seu filho, e também a chegada da democracia, com o início da monarquia constitucional, com eleições para primeiro-ministro.

Antigas fortalezas, os Dzongs são hoje sedes dos governos administrativos e abrigam também monastérios. Na foto, o Dzong da cidade de Punakha. Como um reino remoto e preservado, não é tão simples assim chegar no Butão. O governo impõe regras restritas (como a pequena cota de entradas de visitantes e suas altas taxas para tal), mantendo-o como um dos países menos visitados do mundo, e eleva o turismo (junto com a geração de energia hidrelétrica) a uma das principais fontes de recursos do País.

Por questões astrológicas, Jigme, atual rei do Butão, foi coroado somente em novembro de 2008, sendo na época o monarca mais jovem do mundo. Se o pai dele é conhecido por ter sido “O Rei da Felicidade”, ele já é conhecido e adorado por todos como “O Rei do Povo”. Ele costuma passar parte do tempo visitando as comunidades, só usa voo comercial ao viajar pelo país (recentemente o reino comprou seus 2 primeiros helicópteros, mas eles são de uso exclusivo para o auxílio à população e combate a incêndios) e tem batido forte na tecla da Educação, como sendo essa a chave para a modernização e integração do Butão ao mundo.

A história ganha tons de contos de fada novamente com seu casamento com uma estudante plebeia. O casal, cheio de beleza e carisma, coloca os índices de esperança do povo no futuro do País nas alturas. Agora então, com a chegada do mais novo herdeiro (com umas bochechas que dão vontade de apertar), a família real é mais presente em casas e estabelecimentos. E como exemplo de como o Butão vem se modernizando, é possível inclusive acompanhar a página do rei no Facebook: https://www.facebook.com/KingJigmeKhesar.

Estampada com muito orgulho em fachadas, quadros, broches, porta-retratos e painéis, a família real é presença constante no dia a dia dos butaneses.

A abertura do Butão ao mundo é muito recente, aconteceu há pouco mais de 60 anos (sendo que TV e internet só começaram a chegar às portas dos anos 2000). Se nas lendas e fábulas encontramos bruxas, vilões e dramas de todos os tipos, na vida real, em seu processo de abertura ao mundo globalizado, o Butão tem uma série de desafios pela frente: as comunidades rurais, que cada vez mais querem se juntar às cidades; a mão de obra importada da Índia e Nepal; a necessidade de melhoria nas estradas e infraestrutura; o alcoolismo, que só cresce e vem causando um aumento acelerado do número de violência doméstica e divórcios; e como conter entre os jovens a ameaça das drogas e dos valores que promovam o materialismo a qualquer custo (aumentando desordenadamente o consumo, impacto ambiental, e aumento dos roubos e criminalidade); entre outras questões.

Para afastar má sorte e atrair prosperidade, no lugar de carrancas de caras amarradas, as pessoas pintam falos imensos na fachada de suas casas e estabelecimentos comerciais. Imagine um lugar irreverente, esse é o Butão!

Um lugar tão ímpar que é o único País do mundo sem ter um único semáforo. Onde o bom e o belo parecem residir, com cerca de 2000 templos e monastérios de tirar o fôlego, sem contar que mesmo as casas dos agricultores mais simples têm fachadas com ricos detalhes multicoloridos de madeira e pequenas janelas em arco, típicas da arquitetura local. As roupas nacionais parecem ter saído de um filme medieval, são lindas e charmosas, tanto a dos homens (Gho, um estilo de roupão com punhos grandes e brancos), quanto a das mulheres (Kira, uma combinação de blusa de seda e espécie de saia/sarong bem colorido feito em tear manual e amarrado na cintura).

Em sua época de festivais, com suas músicas, máscaras, histórias e danças, o Butão é uma festa. Ele é todo um museu a céu aberto. É um deleite para os olhos e coração.

Butanês, em suas típicas roupas chamadas Gho, observa o vale Phobijikha, um dos mais lindos de todo o reino.

Fotos

 

 

 

 

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