Yoga & Viagem Como essa combinação transformou meu olhar sobre o mundo

por Erica de CarvalhoInspirações Latitudes16 de janeiro de 2017

A palavra sânscrita yoga possui diversas definições, e deriva da raiz yuj, que significa “unir”. Por isso, ela pode ser traduzida como “união”. União do corpo com a mente (e espírito). União do ser individual com o Ser superior ou Consciência superior.

Há exatos quinze anos, eu entrava em contato com o yoga pela primeira vez, quando minha mãe fez um limpa na biblioteca de casa e separou uma pilha de livros para cada filha. Justo no meu, a filha mais agitadinha, que tinha decidido fazer faculdade na estressante São Paulo, tinha um livro sobre yoga. De todos os livros, aquele parecia ter menos a minha cara, e acho que por isso mesmo, comecei a folheá-lo quase que na mesma hora. Foi ali que, curiosa, li pela primeira vez (e pude praticar sozinha) nomes de asanas (ou posturas físicas) como halasana, sarvangasana e virabhadrasana. A sensação após permanecer algum tempo nessas posturas me causou espanto: era como se uma corrente de energia passasse a correr livremente por todo meu corpo.

Ao voltar do final de semana em família, chego na agência de propaganda que trabalhava na época e uma amiga de trabalho, Marlei Caroli, me conta que tinha acabado de se matricular numa escola de yoga ali perto. E então começou uma fase da minha vida que parecia que eu tinha sido picada pelo mosquitinho do yoga. Passei a percorrer os estúdios de yoga de São Paulo em busca de uma linha de prática e do professor ideal. Foi um período de mergulho intenso, em que lia livros, artigos, estudos e experimentava diariamente posturas e exercícios de respiração. Estava claro que meu caminho era o yoga, mas sentia que ainda não havia me encontrado.

Um belo dia, a Marlei deixou na minha mesa de trabalho um folheto sobre uma viagem para a Índia que passaria pelos principais centros de Yoga e Ayurveda. Era 2003, e um dos primeiros meses de história da Latitudes, que já trazia na bagagem todos os anos de experiência da Ásia Online. E lá fomos nós duas, no horário de almoço, fechar nossa primeira viagem pra Índia. Nada poderia ter transformado mais o curso da minha vida e minha maneira de ver o mundo do que essa viagem.

Partimos para aquela grande aventura. Eu estava maravilhada com aquele contato in loco com a filosofia do yoga, sob a luz dos especialistas que viajavam conosco e tendo contato direto com professores e mestres renomados, como o Dr. Gharote, do Instituto Kaivalyadhama, e B.K.S. Iyengar, em Puna e Swami Dayananda Saraswati, em Rishikesh. Depois de passar por várias cidades, exploramos o sul do subcontinente, no Estado do Kerala. De Allepey, partimos de barco rumo a Trivandrum. Foram algumas horas de paisagem de coqueirais até que alguns prédios muito altos de cor rosa impactaram a nossa visão. Todos ficaram curiosos e o barqueiro explicou que ali era o ashram (mosteiro) de uma grande santa indiana, mas que viajava pelo mundo e dificilmente estaria lá naquele dia. Foi ali, na remota península entre o Mar Arábico e os canais de água salobra, dentro de um Templo de Kali, em Amritapuri, que inesperadamente conheci e recebi o primeiro abraço (ou darshan) de minha mestra, Amma (Mata Amritanandamayi).

A viagem teve muitos momentos mágicos… momentos de profundo olhar interior e silêncio também. Mas para ser sincera, me sentia tão surpreendida e impactada com a riqueza cultural e intensidade das experiências naquele País tão cheio de novas cores, sons e sabores, que mal me conscientizei do tamanho da grandeza do encontro que tinha acabado de ter. Ao voltar ao Brasil, busquei pesquisar mais sobre a Amma e comecei a frequentar um Centro de Meditação com seu nome. Então as fichas começaram a cair. As buscas pelo professor de yoga que eu tanto buscava tinham chegado ao fim. Era ela. E o yoga era muito mais do que eu poderia imaginar, era algo além de um conjunto de posturas que exigiam força, concentração e flexibilidade que eu conhecia até então.

Citando Pedro Kupfer, grande estudioso do yoga e professor que admiro muito, “não convém dizer ‘eu faço Yoga’, pois, em verdade, nós não fazemos Yoga. Ele já está feito! Entramos em Yoga (união) em certos momentos, através das atitudes equânimes. Isso tem a ver com o viver, com estar plenamente cientes do momento presente, com o ar que entra pelas nossas narinas enquanto lemos isto. Se não formos usar o Yoga como ferramenta para o crescimento, não faz muito sentido querer estudar sobre ele. Isso equivaleria a contentar-se com ver uma foto da praia, ao invés de ir pessoalmente dar um mergulho nela.”

Tive a felicidade de voltar outras vezes para a Índia desde essa primeira jornada. E mesmo conhecendo outros cantos do mundo hoje, volto para lá quantas e quantas vezes puder! Para mim, a Índia é um lugar onde temos a chance de voltar com nossa bagagem de condicionamentos mais leve. Poder observar seus inúmeros contrastes (material x espiritual; miséria x suntuosidade; antigo x novo; caos x paz) nos faz sair um pouco do controle e observar a vida com olhos mais gentis, mais pacientes. É impossível estar em meio a uma superpopulação e não se sentir tocado. É muito difícil estar nesse lugar tão ancestral e não rever sua própria história.

Namaste!

Erica de Carvalho, 38, é publicitária, formada em Propaganda e Marketing pela ESPM. Apaixonada por artes, filosofias orientais, viagens e yoga.

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