PANTANAL Imenso mundo

Adriano GambariniCom a palavra, o especialista7 de maio de 2020

Sempre tive uma relação mais do que fotográfica com o Pantanal, e talvez seja uma das regiões por onde mais viajei no Brasil. Tive o privilégio de atravessar os campos alagados na ultima viagem do lendário trem que partia de Bauru rumo à Bolívia, em 1988. Escutei histórias e lendas contadas por pantaneiros nas rodas de tererê, peguei carona em tratores para chegar no desconhecido Morro do Azeite, aprendi sobre o intrincado sistema de cheia e vazante, me perdi nos sons intermináveis das revoadas de aves fechando o céu. Assisti, fascinado, pores-do-sol cujas cores transcendem qualquer paleta de um artista.

Escrevi poemas em sua homenagem. Vi além do meu próprio olhar. Já formado em Geologia, fui chamado pelo Refúgio Ecológico Caiman para trabalhar como guia para ecoturistas estrangeiros. Acompanhando pantaneiros e biólogos, aprendi ainda mais sobre aquela biodiversidade tão rica e ao mesmo tempo, tão frágil.

Como fotógrafo, viajei uma centena de vezes para fotografar sua fauna e flora, documentar pesquisas com onças-pintadas, araras e ariranhas, projetos de conservação socioambiental e pecuária sustentável. E quando minha mente tentava me desafiar dizendo que tudo já tinha sido visto ou aprendido, uma Piúva despontava com tantas flores coloridas no meio do Cerrado, que o intelecto se calava para os sentidos contemplarem aquela árvore imponente e ao mesmo tempo, sutilmente bela.

O Pantanal é um bioma com uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. Ocupa uma área aproximada de 150 mil km² e sua formação geológica está associada ao processo de formação dos Andes, cujo soerguimento condicionou a formação de uma grande planície aluvial, onde hoje são os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Chaco boliviano. E justamente por ser esta planície tão extensa, condicionada pelo sistema hídrico da Bacia do Rio Paraguai, sofre influência direta de três importantes biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.

Uma característica interessante do Pantanal, como bioma, é que muitas espécies ameaçadas em outras regiões do Brasil persistem em volumosas populações na região, como é o caso do tuiuiú, a ave símbolo do Pantanal. Esta enorme ave, da família das cegonhas, pode ter até 3 metros de envergadura, e seu jeito desajeitado na hora de decolar é rapidamente substituído por um voo esplendoroso, planando com suas grandes asas brancas sob um céu azul anil! Aliás, o céu pantaneiro, seja de dia ou à noite, escandalosamente estrelado, é algo que deixa atônito qualquer visitante.

Apesar do Pantanal ser comumente representado por apenas alguns animais, como o próprio tuiuiú, jacarés ou capivaras, sabemos que já foram identificadas mais de 1000 espécies de fauna, entre aves, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos. Aliás, só de aves são mais de 450 espécies! De acordo com um estudo da Embrapa, quase duas mil espécies de plantas já foram identificadas, algumas com alto potencial medicinal.

E como se não bastasse tudo isto, o Pantanal guarda ainda a rainha das nossas matas e campos: a onça-pintada. Nas últimas décadas, com a diminuição drástica da caça e o aumento considerável do turismo de observação de vida silvestre, a população de onças vem tomando fôlego, seja nas margens do Rio São Lourenço, no Pantanal Norte, seja nos campos de cerrado da Pousada Caiman, perto de Miranda, no Mato Grosso do Sul.

Lembro que, quando morei lá, há quase 20 anos atrás, encontrar uma onça era algo tão improvável que as histórias contadas pelos pantaneiros se tornavam quase uma fantasia literária. Perdi a conta das vezes em que saí a cavalo acompanhando vaqueiros que trabalhavam com gado, e ficava olhando atentamente para cada canto de mata em busca de alguma sombra pintada.

Hoje em dia, felizmente tudo mudou. Praticando um turismo de observação nos mesmos moldes dos safáris africanos, já tive a oportunidade de observar onças de todas as formas possíveis, e confesso que não existe nada mais prazeroso do que ficar olhando uma onça-pintada rolando na grama, bocejando na calada da noite, caminhando sossegada como todo animal tem o direito de fazer neste mundão sem fim.

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1 Comentário em “PANTANAL”

  1. ISIDORO ALMEIDA disse:

    Aguardando msis noticias

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