Por que escolhi as montanhas

Manoel MorgadoCom a palavra, o especialista12 de dezembro de 2016

Nestes 25 anos trabalhando como guia de montanha e tendo levado mais de uma centena de grupos aos trekkings mais famosos e deslumbrantes do planeta fui repetidamente testemunha do impacto que estar nas montanhas, caminhando, absorvendo lentamente cada metro percorrido causa nas pessoas. No acelerado ritmo de nossas vidas são raras as oportunidades que as viagens de trekkings nos proporcionam de estar presentes no momento, de se desconectar por uma ou duas semanas do nosso mundo conhecido e mergulhar na experiência de estar rodeados por paisagens maravilhosas e interagindo com culturas que mantém seu modo de vida tradicional. Quantas vezes recebi e-mails após os trekkings de clientes me contando que estes dias nas montanhas foram riquíssimos em aprendizados e que serviram para uma reavaliação de sua vida, de suas prioridades e de seus planos.

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Outro aspecto importante das viagens de trekking é a superação da percepção de nossos limites. Nosso instinto natural é estar em controle das situações dentro de rotinas conhecidas. Por isso, muitas vezes, nos mantemos em empregos e em situações não satisfatórias onde a inércia é mais forte que a coragem da mudança. Nas montanhas nos colocamos em uma situação oposta a isso. Estamos em um ambiente onde pouco controlamos, completamente fora de nossa zona de conforto e com objetivos que não sabemos se poderemos alcançar. Aos poucos vamos aprendendo, vamos nos sentindo mais confortáveis e mais confiantes e finalmente alcançamos nossos objetivos e esta experiência é, após a viagem, trazida para nossa vida com repercussões fantásticas. Como guia é fascinante acompanhar este processo e uma das coisas mais gratificantes de minha profissão.

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Também é muito bonito acompanhar como os grupos rapidamente, em poucos dias, se transformam de várias pessoas desconhecidas em um grupo coeso e solidário. Justamente o fato de compartir estes desafios, o desconhecido, o não controlável, faz com que cresça um grande vínculo que se transforma em amizades duradouras.

Vista do por do sol no Everest

Vista do pôr do sol no Everest

Campo base do Everest

Campo base do Everest

Outro aspecto que marca muito os participantes de trekkings em regiões remotas como as caminhadas no Nepal, Mongólia, Ásia Central é observar como, apesar de uma vida muito dura em termos de conforto e clima, seus povos nos passam uma sensação de estarem em harmonia com seu entorno e felizes. Seus sorrisos fáceis e sinceros nos fazem reavaliar a maneira como nos relacionamos com os outros em nossas vidas cotidianas.

Com tudo isso, tenho certeza de participar de um trekking nas montanhas é muito mais do que conhecer um lugar bonito. É um aprendizado que deixa marcas profundas em nossa maneira de ver o mundo.

 

manoel_mor_1292011_24423MANOEL MORGADO | Médico pediatra pela Escola Paulista de Medicina (São Paulo) e apaixonado por viagens de aventura, iniciou uma jornada pelo mundo na América do Sul, depois Europa, Ásia e Oceania. Voltou-se para a Ásia e adquiriu grande experiência sobre os países e culturas do continente. Passou a acompanhar grupos de viagem, atividade que desenvolve há mais de 20 anos. É estudioso das filosofias asiáticas e tem afinidade especial pelo Budismo. Escala com frequência as montanhas mais altas da África, América do Norte, América do Sul, Oceania e Europa. Em maio de 2010 tornou-se o oitavo brasileiro a alcançar o cume do Monte Everest e, no ano seguinte, o segundo a escalar a montanha mais alta de cada continente (sete cumes). Em março de 2016 guiou o sexagésimo grupo ao campo base do Everest.

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