As terras e luzes do norte

Johnny MazzilliCom a palavra, o especialista18 de novembro de 2019

As terras do Norte

Numa infância modesta muito antes da Internet, eu navegava vezes sem conta em antigos fascículos da Enciclopédia Conhecer e livrinhos que eu comprava de segunda mão. Lia também Julio Verne, cuja obra que eu mais admiro, “Vinte Mil Léguas Submarinas”, mexia com minha imaginação e me punha a viajar para paragens distantes. A certa altura da aventura, o célebre submarino Nautilus, do Capitão Nemo, emergia nas águas ao redor das Ilhas Lofoten, no norte da Noruega. Esse nome, na ótica de um garoto de poucos recursos na década de 1970, ficou gravado como sinônimo de intangível. E assim ficou, por décadas, esquecido em algum canto do subconsciente.

E eu imaginava se, um dia, conseguiria visitar algum dos lugares que me fascinavam. O problema é que todos os lugares me fascinavam. Minha curiosidade era infinitamente maior que meus recursos, e no começo dos anos 1980, comecei timidamente a viajar. No fim de uma década, eu havia me tornado excursionista, espeleólogo e montanhista, e escrevia sobre minhas escaladas, explorações em cavernas e modestas investidas em montanhas, para pequenos jornais regionais. Durante muitos anos em que eu trabalhei com serigrafia e me dediquei ao montanhismo, fui avançando na fotografia e escrevendo mais. E, então, começaram as viagens de verdade. Em 1994, atravessei meio continente africano por terra, uma viagem épica e cheia de perrengues, onde ao final eu escalei o Monte Kilimanjaro. Outras expedições se sucederam, no Peru, na Argentina e na Rússia, e em 2002 fui à Noruega pela primeira vez, para acompanhar uma corrida de trenós puxados por cães no extremo norte do país. E, ao final da corrida, totalmente absorto pela beleza selvagem daquelas regiões, recebi um convite inesperado para conhecer, “um arquipélago belíssimo, marcado por grandes montanhas, canais, fiordes e antigos assentamentos vikings, onde o bacalhau é seco como há mil anos, onde brilha no céu o sol da meia noite e a aurora boreal exibe sua dança misteriosa na escuridão da noite”. Um arquipélago chamado Lofoten…

Foto: Johnny Mazzili

Foto: Johnny Mazzili

 

E, então, teve início uma saga que continua, através dos anos até hoje, viajando incansavelmente para o norte da Noruega, explorando não somente a natureza majestosa de Lofoten, mas também arquipélagos, ilhas adjacentes e diversos outros destinos e regiões de norte a sul no país. Tendo a Noruega como ponto de partida, explorei cenários e culturas na Islândia, Ilhas Faroe, Finlândia, Suécia e Dinamarca. Tomei gosto definitivamente pelas regiões do Mar do Norte.

As Luzes do Norte

Se os territórios ao norte me encantam e me fazem voltar a eles sempre que posso, a aurora boreal, as fascinantes luzes do norte, provocam em mim um sentimento inexplicável. Muito já se especulou sobre esse impressionante fenômeno natural.

Cada povo teve, ao longo da história, suas próprias interpretações para as misteriosas luzes, fenômeno tão lindo como impressionante, cujas causas permaneceram insondáveis por milhares de anos. Espíritos dos antepassados vindos para aconselhar ou alertar, bons e maus presságios dos deuses, entidades malignas, premonição de catástrofes e também de boas caçadas. Hoje, a ciência sabe bastante a respeito. O norte do país é considerado, atualmente, uma das regiões mais belas do planeta, com uma natureza ainda muito preservada. Uma nova e ainda pouco explorada fronteira para o turismo de natureza e sustentável. Hoje, a Noruega é um país muito desenvolvido, privilegiado pela riqueza do petróleo, com uma população pequena que desfruta de excelentes índices sociais. Mas, até a década de 1970, era um país modesto e de poucos recursos. Podemos tentar imaginar como era a vida das populações costeiras do norte, há séculos, quando a colonização das ilhas começou, por volta do ano 600 da era cristã. Frente a um mar de condições não raro assustadoras, noites longas e invernos intermináveis, a vida rude dos povos costeiros era duríssima.

E em minhas investidas às ilhas, às vezes me encontro no meio do nada, sob a escuridão do céu, com a neve funda e a câmera no tripé, aguardando, no silêncio das vastidões abertas, a aparição da dama da noite. E, então, ela vem. Nesses momentos, me sinto transportado para tempos passados e, sem esforço, imagino os antigos habitantes, reunidos ao redor do fogo em suas cabanas de madeira, nas longas noites de inverno, quando a aurora dançava no céu e histórias fantásticas de vikings, deuses nórdicos, entidades e trolls, eram transmitidas de geração para geração, através dos séculos, sob a luz fraca e bruxuleante de lamparinas movidas a óleo de fígado de bacalhau. E me sinto feliz como nunca.

 

Foto: Johnny Mazzili

Foto: Johnny Mazzili

 

Johnny Mazzilli é fotógrafo, viajante profissional, travel writer e editor. Visitou 53 países, alguns deles várias vezes. Esteve 18 vezes na Noruega, país que conhece melhor que o Brasil. Publicou quase duas centenas de artigos de turismo, lifestyle, gastronomia e de cunho cultural em revistas no Brasil e no exterior. Atualmente, é editor do Clube Paladar, uma publicação do Estadão voltada para vinhos, gastronomia e viagens.

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