Shiva e o Carnaval

Alexandre CymbalistaOutros23 de fevereiro de 2017

Na noite de sexta-feira, dia 24 de fevereiro de 2017 no Brasil (dia 25 na Índia) será comemorado o Maha Shivaratri (na tradução do sânscrito, ”A Grande Noite de Shiva”), um período dedicado ao deus hindu Shiva. Shiva é um dos deuses que compõem a trindade suprema do Hinduísmo, e simboliza o poder da transformação, da destruição de velhos conceitos para uma nova ordem, da criatividade, do conhecimento, da energia vital e da renovação. Os outros dois deuses que fazem parte desta trindade, ou Trimûrti, são Brahma (o criador) e Vishnu (o mantenedor – ou o que preserva). Juntos, eles representam as forças que regem o universo, em seus infinitos ciclos de criação, conservação e destruição.

É interessante notar que esta celebração, nesse ano, cai justamente no mesmo dia do início do Carnaval. Este nosso feriado festivo tem origem relacionada a rituais de fecundidade da terra, ao início da primavera (no hemisfério norte), e posteriormente, após o Cristianismo, acabou por perder um pouco seu caráter original. O feriado pagão acabou sendo adotado pela igreja católica e incorporado nas festividades cristãs do início da Quaresma e o ciclo da Páscoa.

Posteriormente, o Carnaval moderno foi reativado na Era Vitoriana, no final do século XIX e início do XX, tendo a França (em especial Paris) como a grande influenciadora dos bailes de máscara e grandes festas à fantasia neste período.

No Brasil parece que o sentido do Carnaval se manteve o mais preservado e vivo, entre tantos outros países que comemoram o feriado no mundo. A nossa festa é luxuriante em todos os sentidos: das fantasias criativas dos blocos de ruas às muito elaboradas dos desfiles oficiais das Escolas de Samba. Mas no fundo, não precisamos de nada: soltamos as amarras e encaramos o espírito da liberdade: bebemos, dançamos, nos libertamos.

O Carnaval, para muitos, marca também o início do ano de fato: o momento em que o País, ainda trôpego pelas festas de final de ano e férias escolares, cai de boca em uma última bebedeira antes da sobriedade pós quarta-feira de cinzas. O Carnaval é, portanto, o ponto de mutação e de ativação, onde as amarras do ano anterior, as ideias e os fantasmas se libertam dando espaço ao novo ano. Quase como o próprio rito de Shiva. Em sua manifestação apoteótica como Nataraja, Shiva dança dentro de um círculo de fogo (símbolo da renovação), toca seu tambor sagrado (dhamaru) com uma das mãos (representando o ritmo, o tempo e movimento do universo) e, em sua dança cósmica, destrói o que já não nos serve para criar espaço para algo novo e bom. Que o alinhamento entre Shiva e o Carnaval abra os caminhos para um tempo melhor, um novo ciclo que tanto precisamos e desejamos ao nosso país.

A lá lá ô ô ô Om Namah Shivaya! Desejamos um ótimo Shivaratri e Carnaval a todos!

 

Alexandre Cymbalista é sócio-diretor da Latitudes.

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