Viagens na Lenda e na História O Caso "Reis-Magos"

Plinio Freire GomesCom a palavra, o especialista16 de junho de 2020

Três antigos e misteriosos viajantes povoaram o imaginário de muitos de nós, quando éramos crianças. Foram eles a trazer os presentes que enumerávamos solenemente, sem saber ao certo a sua serventia – ouro, incenso e mirra. Sabíamos, porém, que o tesouro se destinava ao menino da manjedoura. Ao menos tal era a cena que retratava o teatro em miniatura denominado presépio, com seus personagens de gesso ou de porcelana. Seja como for, os viajantes ficaram na nossa lembrança com o nome sugestivo, embora confuso, de “Reis-Magos”. Mas que espécie de título seria este? Reis de qual reino? E que tipo de magia os tornava “magos”?

A lenda originou-se no Evangelho de Mateus. Num relato extremamente enxuto, o apóstolo narra o aparecimento em Jerusalém de certos sábios vindos do Oriente. Recebidos por Herodes, eles contaram ter sido guiados por uma estrela; e que pretendiam render homenagem a um messias. “Onde está a criança – perguntaram – que nasceu para ser o rei dos judeus?” A informação inquietou Herodes, dando origem ao Massacre dos Inocentes. Os estrangeiros, todavia, continuaram a seguir aquela estrela até deparar o sagrado menino junto a sua mãe, Maria.

Como tudo na vida de Cristo, a homenagem dos Reis-Magos foi amplamente retratada na história da arte. Entre as personificações mais antigas da lenda, destaca-se o programa de mosaicos que ornamenta a igreja de Sant’Apollinare Nuovo, em Ravena. A obra, realizada em meados do séc. VI, dispõe os três protagonistas em fila indiana. Com o corpo inclinado para frente, o grupo mantem os olhos fixos numa estrela dourada que paira no céu. Atrás deles reconhecem-se três soberbas tamareiras carregadas de fruta, e uma inscrição que revela seus nomes: Baltasar, Melquior e Gaspar. Todos apresentam a mesma atitude, com as pernas exageradamente afastadas, dando à imagem um forte sentido de marcha. Ostentam ainda, em valiosos recipientes prateados, os artigos da homenagem ao “rei dos judeus”. Aparecem, por fim, vestidos de forma requintada e colorida: a cabeça está coberta por um capuz vermelho e o dorso pelo manto, espécie de guarda-pó, típico dos viajantes obrigados a enfrentar estradas de terra.

Mosaico com os três reis magos da Igreja de Sant´Apollinare Nuovo, na cidade de Ravena, Itália.

A lenda invadiu também a cultura pop, inspirando uma das sequências mais cômicas do grupo britânico Monty Python. Pelas ruelas pobres de Belém, esgueira-se uma comitiva de majestosos camelos. Os animais param diante de uma choupana, e lá está a mãe com a manjedoura e o recém-nascido. Os três estrangeiros, ataviados com indescritível exotismo, se apresentam e dão início à distribuição das oferendas. A mãe, sem entender, recebe tudo de braços abertos – mas mal terá tempo para comemorar. Porque, num piscar de olhos, os estrangeiros retornam e arrebatam as prendas de volta. A estrela afinal não pousara naquela choupana, e sim em outra, situada mais adiante, com outra mãe e outro recém-nascido, o autêntico. Assim começa, com uma monumental barbeiragem, a anônima vida de Brian.

As duas versões da lenda, a séria (em mosaico) e a satírica (em filme), colocam os Reis-Magos entre os mais célebres viajantes de todos os tempos. A razão do sucesso é que eles aglutinam uma rica teia de símbolos, cujo sentido nem sempre é fácil decifrar. Comecemos pela formação em trio. O número três, na verdade, estava longe de ser casual: a existência humana somava “três idades”; e o mundo conhecido (antes de Colombo) compreendia “três continentes”. Assim, os Reis-Magos de Ravena representam cada qual uma geração: Melquior é o adolescente ainda imberbe; Baltasar, o adulto; e Gaspar, o ancião. Mais tarde, com a expansão do comércio e o crescente contato entre os povos, os Reis-Magos passam a espelhar diferentes etnias: Melquior converte-se em árabe; Baltasar em etíope; e Gaspar em europeu. Os três artigos preciosos que o grupo oferece ao Menino Jesus também são densos de significado. O ouro, trazido por Gaspar, é símbolo do poder sobre as coisas terrenas. O incenso, dom de Melquior, é o poder sobre as coisas espirituais. Por fim, a mirra de Baltasar, usada como fármaco e item essencial no processo de embalsamento, é o poder da vida eterna sobre a morte.

Eis que a simpática lenda dos presépios revela-se agora uma alegoria da maior importância. Os Reis-Magos, de fato, vêm a ser um pressuposto fundamental na construção da ideia de Cristo. Baltasar, Melquior e Gaspar servem como emblema da totalidade (o três); e como tal atestam o caráter universal da mensagem de Cristo: ela se destina a homens de todas as idades, de todas as terras, de todas as raças. Além disso, seus presentes explicitam a tripla natureza de Cristo – como Rei, como Deus e como Salvador. Nada mal para um trio de viajantes que entraram na tradição bíblica de soslaio, quase de contrabando; e provavelmente nem sequer existiram.

Ou será que existiram? A história com frequência nos ensina que as construções simbólicas não brotam do nada. Ao contrário, elas costumam refletir traços de uma realidade perfeitamente documentada. Não custa examinarmos melhor, agora considerando o contexto, os personagens e os objetos da trama. A Palestina da época de Cristo era cortada por uma importante artéria comercial, a Via Maris. A função desta passagem era estratégica: ela conectava as duas extremidades do Crescente Fértil, o Egito de um lado e a Mesopotâmia de outro. Após superarem o deserto do Sinai, as caravanas dirigiam-se a Gaza, percorrendo a costa da antiga terra de Canaã. Em seguida, penetravam o continente pelo Vale de Jezrael, entre Samaria e a Baixa Galileia. Naquele ponto uma bifurcação permitia rumar para o norte, em direção ao Vale do Beka (no Líbano atual); ou para o leste, primeiramente em direção a Damasco e Palmira (na Síria), e depois a Níneve e Babilônia, nas margens do Tigre e do Eufrates (Iraque).

A antiga Via Maris, em roxo. Em vermelho, o Caminho dos Reis. Fonte do mapa: Wikipedia.

Certo é que, nos primórdios do cristianismo, a Palestina era frequentada por viajantes ricos, ataviados com exóticas vestimentas. Tais estrangeiros – como os Reis-Magos – vinham de terras distantes, da África, do Mediterrâneo e da Ásia. Mas há um detalhe suplementar que torna a lenda ainda mais plausível. Na altura do Mar Morto, a Via Maris se conectava a outro itinerário comercial: um feixe de caravanas provenientes do sul unia a Palestina, através de Petra, Mar Vermelho e Península Arábica, à zona prodigiosamente fértil da chamada Arabia Felix (Iêmen e Oman). Dois eram os principais itens transportados por esta rota: incenso e mirra.

Estamos falando de produtos que, na Antiguidade, tinham enorme relevância comercial. O incenso era de uso cotidiano em todos os templos do mundo greco-romano, egípcio e oriental. A mirra, já vimos, era matéria-prima indispensável na produção de remédios, bem como na preparação de múmias. Se hoje a circulação de tais commodities é praticamente irrisória, estima-se que naquela época seu consumo alcançava 6 mil toneladas por ano. E boa parte deste montante passava pela Via Maris, há poucas dezenas de quilómetros da manjedoura de Cristo.

Resta ainda interpretarmos o estranho título com o qual a tradição designou os nossos viajantes. Por que “Reis-Magos”? A resposta do enigma reside em outro povo ainda não mencionado até aqui. No Evangelho de Mateus, escrito em grego, lemos o termo magos – que identificava a casta religiosa do antigo Irã.

Enfim, as últimas peças do quebra-cabeça começam a se encaixar. Porque os “magos” no sentido moderno, os ilusionistas, ainda demorariam a entrar em cena. Na época em que a lenda do presépio tomou forma, tais indivíduos eram reputados grandes conhecedores de astrologia. Nada mais natural que fossem associados à flamejante aparição da Estrela de Belém. Aliás, seu poder “mágico” residia na capacidade de prever o futuro. E efetivamente havia algo de premonitório na narrativa: o futuro profetizado pela tradição judaica; e atuado pelo advento do messias.

Posto isto, o componente primordial da trama parece ganhar um significado novo. Não surpreende que, no mosaico de Ravena, o trio apareça vestido com trajes persas, incluindo o berrete frígio (capuz), o kandys (manto), o shalvar (calça). Ora, para o evangelista, assim como para seus leitores, insistir nesta conexão oriental conferia ao cristianismo uma inquestionável nota de reconhecimento. Dizer que os Reis-Magos vinham do Oriente implicava que eles eram persas, que eram astrólogos e que praticavam o zoroastrismo. Dizer que viajaram carregando ouro, incenso e mirra, implicava que a religião antiga viera chancelar a nova. Aquela que nascera com Cristo em terra palestina.

Fachada da Igreja Sant´Apollinare Nuovo, em Ravena (Itália).

 


 

Plinio Freire Gomes é Historiador e Mestre pela USP, tradutor e conferencista. Publicou vários artigos acadêmicos, além do livro Um herege vai ao paraíso (Companhia das Letras, 1997). Viveu em Florença, na Itália, por dez anos e transferiu-se em seguida para Damasco, na Síria, onde se dedicou ao estudo do Islã e da cultura árabe. Atualmente desenvolve projetos ligados à arte islâmica e à história das relações entre o Ocidente e o Oriente, além de ministrar cursos em instituições como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu de Arte Sacra (MAS), Museu de Arte Moderna (MAM), Fundação Ema Klabin, Centro Cultural Universitário Maria Antônia (USP) e Casa do Saber.

 

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