Parque Nacional de Anavilhanas

Juliana ZolaInspirações Latitudes24 de março de 2020

Já é sabido que o Brasil guarda verdadeiros tesouros naturais e o Parque Nacional de Anavilhanas é um deles. Os labirintos das águas escurecidas do Rio Negro que serpenteiam o horizonte de ilhas fluviais contornadas ora pela areia branca, ora pelo dossel verde e denso das florestas de igapó parecem ser infinitos, e formam uma das paisagens típicas da imensidão amazônica.

Muito bem acomodado entre os municípios de Manaus e Novo Airão, no Amazonas, a unidade de conservação que envolve o arquipélago fluvial evoluiu de uma Estação Ecológica (EC) criada em 1981 para um Parque Nacional (PARNA) no ano de 2008. Como consequência da nova categoria, o local passa a receber visitação turística monitorada. A cultura dos moradores da região sempre esteve conectada com os rios e com a floresta, seja como transporte, alimentação, lazer, saúde, fé e em diversas manifestações culturais locais. O rio tem uma forte representatividade na identidade dessas pessoas.

Fonte: Google Maps

A dinâmica das águas

O Parque fica aberto o ano todo, mas é o regime das águas que vai definir o que você irá ver e fazer por lá. Na época de seca, que ocorre gradativamente entre os meses de setembro e fevereiro, emergem as praias fluviais de areia branca e, na cheia, entre março e agosto, grande parte da vegetação fica submersa e nos convidam aos passeios pelos igapós (florestas inundáveis). Essa amplitude das águas pode variar de 8 a 12 metros.

Mas em qualquer época nadar no Rio Negro, apreciar as maravilhas da fauna da flora amazônicas e aprender muito sobre a floresta e seus recursos durante as trilhas terrestres, conhecer as comunidades locais, entrar em contato com a riqueza do artesanato local, entre tantas outras atividades deliciosas que esses ecossistemas nos oferecem. Uma das atividades mais emocionantes, na época das cheias, são as trilhas aquáticas de igapó, quando em pequenos barcos adentramos pelas florestas alagadas, oferecendo um visual inesquecível da riqueza da floresta.

Outras atividades como passeios aquáticos, trilhas terrestres, observação de fauna, flora e paisagens incluindo a escalada em árvores (as escaladas são feitas nos macucus gigantes), vôos panorâmicos de hidroavião, curtir as praias calmas de areia branca na época da seca e praticar atividade náuticas também podem ser feitas.

Biodiversidade

Estamos na maior e mais biodiversa floresta do mundo e o Parque de Anavilhanas tem a sua relevância dentro desse imenso bioma. Como segundo maior arquipélago fluvial do mundo, vários títulos que reconhecem sua importância dentro do cenário internacional, nacional e regional. Compõe a Reserva da Biosfera da Amazônia Central (reconhecida pela UNESCO), faz parte do Complexo de Conservação da Amazônia Central (Patrimônio Natural da Humanidade, também da UNESCO) e pertence ao Mosaico de Áreas Protegidas do Baixo Rio Negro (reconhecido pelo MMA), além de ser Sítio RAMSAR (relacionado às áreas úmidas do planeta).

Foto: Nathalia Segato | Unsplash

O Parque protege uma diversidade de ecossistemas aquáticos e terrestres, testemunhas da história natural da região que, integrados, proporcionam uma riqueza de formas de vida, serviços ecossistêmicos e fonte de conhecimento, como legados à humanidade. É um celeiro de pesquisas científicas que visam o conhecimento e a conservação dos biomas amazônicos, educação ambiental e turismo sustentável, atividades também fundamentais para o desenvolvimento das comunidades locais.

Há diversos tipos de vegetação nativa, tanto nas ilhas quanto em terra firme, com espécies como as florestas de igapó, a floresta ombrófila e outras variedades, além das estrelas locais que são os macucus gigantes de igapó (são as árvores mais altas do arquipélago), e espécies de orquídeas e bromélias endêmicas da flora do parque.

O peixe-boi e o boto-vermelho (mais conhecido como boto cor de rosa) são animais símbolos do Parque. Junto com o boto cinza (ou boto tucuxi), são 3 espécies protegidas pela área, além de lontras e ariranhas. Esses animais estão presentes em diversos mitos amazônicos, tão forte é a sua presença no universo cultural ribeirinho. Outro destaque do parque é a sua avifauna, repleta de espécies de distribuição limitada. Por sua riqueza, o local guarda grande potencial para os observadores de aves (birdwatchers), sobretudo na seca, quando a abundância e concentração de alimentos é maior, tornando o avistamento mais fácil.

Vestígios arqueológicos indicam uma ocupação local por povos originários há cerca de 6.500 anos. Falantes Arawak, Tukano, Maku e Karib destacam-se entre as etnias presentes na região. A Terra Indígena dos guerreiros Waimiri-Atroari é a mais próxima do Mosaico de Áreas Protegidas do Baixo Rio Negro. Colonização, miscigenação (entre brancos de origem sobretudo portuguesa, negros escravos, libertos e quilombolas e indígenas de várias etnias), a extração de recursos naturais dos seringais, o artesanato, as castanhas e macaxeiras, da província amazônica do Grão-Pará à sua incorporação ao Império Brasileiro, a Cabanagem, as lutas socioambientais e Chico Mendes, entre tantos outros homens e mulheres defensores da sociobiodiversidade são marcos e símbolos importantes da história e culturas regionais, formando sua identidade frente à diversidade de paisagens e povos amazônicos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Recentes

As terras e luzes do norte

Johnny Mazzilli

As terras do Norte Numa infância modesta muito antes da Internet, eu navegava vezes sem conta em antigos fascículos da Enciclopédia Conhecer e livrinhos que eu comprava de segunda mão. Lia também Julio Verne, cuja obra que eu mais admiro, “Vinte Mil Léguas Submarinas”, mexia com minha imaginação e me punha a viajar para paragens […]

18 de novembro de 2019

MACHU PICCHU, A CIDADE PERDIDA EM NÓS

Erica de Carvalho

Existe uma crença, talvez por conta de nossa herança de pensamento judaico-cristão, de que só se aprende através da dor. Em alguns contos da América Central aparecem os “descansos” – cruzes deixadas pelo caminho que marcam as pequenas e grandes mortes em nossas vidas, símbolos de perdas e rupturas que funcionam ao mesmo tempo como […]

27 de fevereiro de 2018

EM TERRA DE REIS E DRAGÕES

Erica de Carvalho

Tente imaginar um reino intocado, em terras altas, com uma vista estonteante para vales verdes e férteis, rodeados por cumes nevados. Um lugar raro, onde os índices de emissão de carbono chegam a ser negativos, onde 70% de toda natureza é preservada e, mesmo assim, a terra dá todo alimento àqueles que vivem dela. Além […]

29 de junho de 2017